Investimento: os 10 erros mais comuns
SMART MONEY MOVES
9 min
Investir não é complicado. Mas é fácil errar.
Errar é inevitável, e é especialmente comum quando se investe. Mesmo os investidores profissionais com anos de prática cometem erros. E muitos.
Não faz parte da teoria, mas faz parte da prática.
Todo este tempo a acompanhar patrimónios e decisões reais — em ciclos de euforia e de pânico — permitiu-me identificar erros e padrões que se repetem vezes sem conta. Sucedem-se em máximos históricos e em mínimos dramáticos, quando os juros sobem e quando descem, desde os tempos dos pregões em papel e lápis, como hoje com a inteligência artificial. Não são erros exóticos, são erros comuns. Alguns técnicos, outros de perceção, a maioria profundamente humanos.
Esta semana falamos dos erros mais comuns em investimento, e mais importante, como corrigi-los.
Porque investir não é sobre estar sempre certo.
É sobre evitar os erros que realmente fazem diferença.
Erro 1: Investir sem a due diligence necessária ou no que não se percebe
Se vai investir:
faça o trabalho de casa
compreenda exatamente o que está a fazer
Perceba na perfeição o onde, o como e o porquê. Conheça as características, os riscos, o funcionamento e as variáveis que movem o(s) ativo(s). A única incerteza aceitável deve ser o resultado, não o que tem em mãos. Warren Buffett, o melhor de sempre ensinou-nos sobre “circle of competence” — “never invest in a business you cannot understand.” E viveu com esta máxima. Evitou tecnologia durante décadas por não a compreender, e ainda assim construiu a maior história de sucesso dos mercados.
A regra é simples: se não compreende, não invista.
Erro 2: Investir sem plano
Investir sem um plano é um erro universal. 90% dos investidores não tem um plano financeiro, muito menos um escrito. Sem plano, não há direção. Há reação, há impulso e há improviso; decide-se sem reflexão e com pouca razão. Achamos que vamos para um lugar e acabamos noutro. O plano define o como, o quando e o porquê de cada decisão. Clarifica quanto poupar, como investir, quais os objetivos, as restrições e os princípios. “Planeamento vence produto — sempre!” Há uma obsessão no mundo dos investimentos em encontrar o melhor produto, o fundo com melhor performance, a ação que vai explodir. Mas após anos nesta profissão, posso dizer com certeza: o melhor investimento não resolve falta de estratégia.
Erro 3: Expectativas de retorno desajustadas
Expectativas de retorno desajustadas são, sobretudo, um convite à frustração. E ao erro. Manifesta-se normalmente de duas formas: na magnitude do resultado ou no tempo a produzir efeitos.
Lembra-se daquela dieta repentina a dias do início do verão? É igual!
Quando se espera rentabilidade de curto prazo com risco de longo prazo (ou vice-versa), a desilusão é quase garantida. Expectativa não é resultado, e quando esquecemos isso, pagamos a diferença. Compreender o padrão “normal” de retorno de cada classe de ativos, e o tempo a lá chegar é o que nos permite ajustar expectativas, cometer menos erros e reagir com menos emoção à evolução dos investimentos.
Erro 4: Alocação desalinhada dos objetivos
Este erro assume duas formas:
Um. Falta de objetivos de investimento claros. As poupanças e investimentos são um acumulado de dinheiro sem meta — “é para o que vier a ser necessário”, dizem-me.
Dois. O portfolio (e o asset allocation) não reflete os objetivos. Um exemplo torna mais fácil o ponto a que quero chegar: financiar uma reforma a 30 anos com ativos conservadores limita o crescimento e compromete o conforto futuro necessário; noutro extremo, financiar necessidades de curto prazo com ativos voláteis expõe-nos a riscos errados sem necessidade. Em ambos os casos, sabotamos o objetivo quando não conciliamos o objetivo, o prazo, o risco e a função de cada ativo. Não é o mercado a falhar, é a construção da carteira que falha. É perder antes mesmo do jogo começar. Demasiado risco para objetivos de curto prazo ou prudência excessiva para metas de longo prazo. Mais importante do que escolher bons ativos é definir a alocação certa para o objetivo certo. Primeiro os objetivos, depois a alocação. Muitos investidores escolhem a ordem inversa.
Erro 5: “Portfolio sprawl”
“Too many accounts, too many holdings, too much redundancy.”
Este erro é tão comum quanto ignorado. “Sprawl é uma palavra inglesa que significa expansão desordenada, dispersa ou descontrolada”. No caso, falamos de portfolios com demasiados ativos (muitas variáveis), diversificação em excesso (ou falta dela), redundância, sobre-exposição (comum) e complexidade desnecessária. Em resumo, demasiadas contas, demasiados ativos e pouca estratégia. Nem por isso mais proteção. São carteiras de investimento mais difíceis de monitorizar, de medir performance e de vigiar. É muito fácil de corrigir.
Erro 6: Hipervigilância ou complacência
“Too much, or to little?” Onde fica a moderação? Já reparou quantas vezes consulta os seus investimentos? Três vezes por dia? Uma vez por semana? Uma por mês? Uma vez por ano? As cotações mudam ao segundo. Da próxima vez que olhar, estarão diferentes. É apenas uma fotografia, e uma fotografia diz muito pouco.
Hipervigilância não ajuda. Complacência também não. Ou reagimos em excesso às oscilações, ou caímos na inércia de as ignorar. Em ambos os casos, afastamo-nos da disciplina que gera resultados no longo prazo.
O que fazer então?
Não existe uma métrica universalmente certa — existe a que está alinhada com a nossa personalidade, perfil e objetivos — aquela que nos mantém no rumo definido. A que não nos conduz ao impulso, mas que nos obriga a ação quando é necessária.
Erro 7: Ignorar o fator humano: decisões emocionais
Quando a emoção entra em cena, temos um problema.
Somos humanos, logo emocionais. Isso não é o erro. O erro é ignorar o impacto que isso tem nas nossas decisões. Mais cedo ou mais tarde, as emoções vão tentar tomar as rédeas, e o importante é estar preparado para esse momento.
Compra-se quando “sabe bem”. Vende-se quando “sabe mal”. Com o ruído constante das notícias, há sempre um pretexto para agir. A melhor defesa? Um plano. Nada de novo também aqui. 😊 Mas é o que separa reação de estratégia, e reduz o peso da emoção no processo de decisão.
Erro 8: Annoying mistakes: I know better
O erro do “eu sei melhor” é acreditar que somos mais espertos do que o mercado. Uma mistura de arrogância, teimosia e excesso de confiança da nossa habilidade enquanto investidores. Acontece com frequência, e até hoje, ainda não conheci ninguém imune. Assume muitas formas e feitios:
Time the market
Chase performing
FOMO (fear of missing out)
Over-trading
A dica do vizinho …
Vender uma posição ganhadora cedo demais
Manter uma posição perdedora por demasiado tempo
Waiting to get even
Taking too much, too little, or the wrong risk
…
Como nos vídeos de desastres em câmara lenta; é exatamente assim que os vejo a acontecer. E não adianta dizer… cada investidor vai tentá-lo à sua maneira, e descobrir por si. Os maiores erros de investimento tendem a acontecer quando se toma uma má decisão no pior momento possível. E os estragos são, quase sempre, desproporcionais.
Erro 9: Não compreender risco
O risco é em geral mal compreendido, e muitas vezes, mal percecionado. Confundimos volatilidade com perigo. Umas vezes subestimamos, outras vezes sobrevalorizamos. A nossa relação com o risco é delicada porque assumir risco, ainda que necessário, implica abdicar de controlo. E este é um ponto sensível para todos nós. Risco não é incerteza, não é oscilação. Demasiado atira-nos para o desconforto, muito pouco impede-nos de atingir objetivos e de cumprir planos. O que não percebemos sobre verdadeiro risco é que não está no que lemos, nem tem o carácter frequente que nos fazem crer acreditar.
“Bears make sense, bulls make money”.
Em investimento, risco é acima de tudo comportamento. Na ilusão com que o medimos e na resposta há adversidade.
Concluir com esta ideia: “tolerância a risco” (perfil de risco) é diferente de “capacidade de assumir risco”. Posso tolerar risco e até ter perfil de investidor “agressivo”, mas não ter capacidade de assumir risco. Por exemplo, o investidor que se encontra desempregado a viver de poupanças acumuladas. Tem tolerância, mas não tem capacidade. O contrário também é frequente; tem capacidade mas não o tolera.
Dê significado ao risco e aceite os que se adequam à sua situção pessoal.
Erro 10: Não compreender diversificação
Todos conhecem a história “de não pôr os ovos todos no mesmo cesto”. Mas a história que nos contaram é um erro; ou melhor conduz-nos ao erro. É uma história tão antiga, que por toda a gente achar que a conhece, nunca a ouviu até ao fim!
O problema não é distribuir os ovos por vários cestos. O problema é onde estão os cestos.
Pode, de facto, espalhar os ovos por dez cestos diferentes. Mas se todos estiverem dentro da mesma capoeira, basta a raposa entrar uma única vez — e lá se vão os ovos, os cestos, as galinhas… e talvez a própria capoeira.
Nos mercados financeiros, diversificação não é ter muitos ativos. Não é ter muitas linhas no extrato. Não é ter cinco fundos “diferentes” que afinal reagem todos da mesma forma às mesmas variáveis. Diversificação é ter ativos que respondem de forma diferente aos mesmos fatores de risco. Se todos dependem da mesma variável — crescimento económico, taxas de juro, liquidez global, múltiplos, sentimento — então não há diversificação. Há apenas multiplicação do risco ao mesmo fator de exposição.
Os sistemas binários funcionam em 0 ou 1. As correlações funcionam entre -1 e 1. Diversificar é reduzir correlação. Idealmente é combinar ativos cuja correlação não seja 1; no cenário mais eficiente, incluir ativos com correlação negativa (próxima de -1). Ativos que, quando um sobe, o outro desce. Não porque sejam “bons” ou “maus”, mas porque respondem a forças diferentes.
Diversificar gera uma consequência inevitável: haverá sempre algo que “não está a funcionar”. Sempre! Se tudo sobe ao mesmo tempo provavelmente não está diversificado. Da próxima vez que me perguntar porque é que o investimento X ou Y não está a render como os outros, a resposta é simples: porque o resto da carteira está a fazer o trabalho. A underperformance parcial de uns é o preço a pagar pela estabilidade global. É reduzir dependências. É impedir que uma única variável explica o resultado total. É garantir que a raposa não tem a chave de todas as capoeiras ao mesmo tempo.
Agora já sabe. Da próxima vez que ouvir a história dos cestos… conte-a até ao fim. 😉
Como posso evitar estes erros?
Primeiro, reconhecê-los. Depois, aceitá-los. Só então podemos criar mecanismos para os neutralizar.
Tenha um plano financeiro e automatize-o
Defina regras (escritas)
Tenha um mecanismo de controlo emocional — afaste-se do portfolio (se necessário)
Desligue o ruído permanente (afaste-se do portfolio, outra vez)
Zoom in, zoom out — um extrato é uma fotografia; não muda quem é nem onde quer chegar
Reduza complexidade desnecessária
Rebalanceie o portfolio com disciplina
Questione o “eu sei melhor!”
Já pensou num WINGMAN financeiro? Ainda se lembra do seu wingman 😉? Ninguém vai decidir por si ou dizer-lhe o que fazer; vai trazer perspetiva, frescura no pensamento, negar evidências ou reafirmar convicções. Procure um, e aumente decisivamente a probabilidade de ser bem-sucedido.
Dica Fun Money: 5% dos meus investimentos estão num portefólio chamado “Dumb Money”. É ali que vou errar. Repetidamente. By the book uma por uma, do 1 ao 10, vou sabotar os meus investimentos tantas vezes quantas puder. Criei-o de propósito com um nome suficientemente sugestivo para nunca me esquecer do que é, e para o que serve. Não é dinheiro para perder, mas que (eventualmente) posso perder.
É um espaço controlado onde cometo os erros sem contaminar o resto da estratégia. Uma válvula de escape comportamental. Um laboratório emocional. Os outros 95% seguem o plano — com disciplina, com processo e sem inventar. Não é eliminar o lado humano. É saber onde o deixar sair, sem destruir o sistema inteiro.
Se daqui a 10 anos me pedirem para escrever novamente sobre erros de investimento, duvido que seja muito diferente. É fácil reconhecermo-nos nestes erros, porque já os cometemos no passado, cometemo-los no presente e, em algum momento, voltaremos a cair neles. Erro é comportamento, consciência é vantagem. O mercado vai testar-nos todos os dias — quem aprende, e se prepara, vai à frente.



Bons pontos! Diria que o número um e mais importante será sem dúvida a gestão de risco. Só verdadeiramente entende o risco quem faz a due diligence e cobre praticamente todos os pontos enunciados. Qualquer investimento deveria ter em conta quando entrar, quando sair se der para o torto ou quando sair quando der certo, e tudo sem expectativas; aquela parte psicológica que exige um determinado grau de maturidade para se conseguir aguentar os golpes imprevistos do mercado...
Parabéns pelo texto!